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Revista da Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras / Volume 6, Número 2
Volume 6, Número 2

Revista da Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras - Artigo de Pesquisa

O BRINQUEDO TERAPÊUTICO NA ASSISTÊNCIA À CRIANÇA: O SIGNIFICADO PARA OS PAIS

Written by Circéa Amalia Ribeiro, Regina Issuzu Hirooka de Borba, Edmara Bazoni Soares Maia, Fernanda Carneiro

Estudo qualitativo que objetivou compreender o significado atribuído pelos pais, sobre a utilização do Brinquedo Terapêutico na assistência de enfermagem a seus filhos. Utilizou-se como referencial teórico e metodológico a Fenomenologia na modalidade do Fenômeno Situado. Os dados foram coletados por meio de entrevistas gravadas com pais de crianças atendidas nas Unidades de Internação Pediátrica e Ambulatório de um hospital geral de ensino e de uma instituição filantrópica da cidade de São Paulo. Os resultados revelaram que os pais consideram o Brinquedo Terapêutico uma importante intervenção que possibilita à criança uma melhor compreensão dos procedimentos, propicia um meio para ela extravasar os sentimentos advindos dessa vivência, além de favorecer a eles um melhor conhecimento a respeito das capacidades de seus filhos, e sugeriram que esta forma de intervenção fosse sempre utilizada na assistência à criança.

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INTRODUÇÃO

A literatura especializada tem apontado o brincar como uma possibilidade de modificar o cotidiano da assistência à criança pois, através de um movimento pendular entre o real e o imaginário, ela transpõe as barreiras do adoecimento e os limites de tempo e espaço (MITRE, GOMES, 2004). Essa possibilidade estende-se além do cuidado hospitalar para qualquer outro contexto de assistência à saúde (SANTOS, BORBA, SABATÉS, 2000; RIBEIRO, SABATÉS, RIBEIRO, 2001).

Na assistência à saúde, o brincar deve ser utilizado tanto para cumprir sua função recreacional como terapêutica, destacando-se para tanto o Brinquedo Terapêutico (RIBEIRO et al., 2002).

O Brinquedo Terapêutico constitui-se num brinquedo estruturado para a criança aliviar a ansiedade gerada por experiências atípicas de sua idade, que costumam ser ameaçadoras e requerem mais do que recreação para resolver a ansiedade associada, devendo ser usado sempre que ela tiver dificuldade em compreender e lidar com a experiência (STEELE, 1981). Seu objetivo é dar à enfermeira uma melhor compreensão das necessidades da criança e também auxiliar no preparo da criança para procedimentos terapêuticos, assim como permitir que ela descarregue sua tensão após os mesmos (BARTON, 1969; CLATWORTH,1978; GREEN, 1979).

O Brinquedo Terapêutico pode ser classificados em três tipos: dramático, que propicia à criança dramatizar experiências novas, difíceis de serem verbalizadas e, tornar-se emocionalmente segura; capacitador de funções fisiológicas, no qual a criança participa de atividades para melhorar seu estado físico, por intermédio de brincadeiras que reforçam e envolvem seu próprio cuidado; e o instrucional ou preparatório, que prepara a criança, por meio de uma brincadeira, para os procedimentos a que será submetida, a fim de promover sua compreensão sobre o tratamento e clarear conceitos errôneos (VESSEY, MAHON,1990). Dessa forma, o brinquedo torna-se terapêutico quando promove o bemestar psicofisiológico da criança (ANGLIN, 1993).

A utilização do Brinquedo Terapêutico vem gradualmente sendo inserida na prática assistencial às crianças e com ela inúmeros benefícios desta vivência se consolidam no contexto do cuidado (HALL, REET, 2000; MAIA, 2005). As enfermeiras o têm utilizado não só como um meio de alívio para as questões impostas pela doença, pela hospitalização e pelos procedimentos, mas também como uma possibilidade de comunicação pela qual podem dar explicações e por meio da qual podem receber informações do que as situações significam para as crianças e o que estão compreendendo delas (RIBEIRO et al., 2002). Estudo realizado com o objetivo de verificar a opinião das crianças sobre a experiência em vivenciar o brinquedo terapêutico, constatou que para elas essa vivência foi engraçada, divertida e fortalecedora da relação com o profissional, além de constituir-se num momento para refletir e expor seus sentimentos (CARROL, 2002).

Durante a hospitalização, além de permitir à criança maior segurança e encorajamento frente às situações estressantes, o brincar pode proporcionar aos pais, quando envolvidos nesta intervenção, maior relaxamento, envolvimento e crescimento com a experiência ( HALL, REET, 2000).

Dada a relevância dessa forma de intervenção, em 2004, o Grupo de Estudos do Brinquedo-GEBrinq* solicitou parecer sobre a utilização do brinquedo terapêutico como instrumento da assistência de enfermagem junto ao Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo (COREN-SP), o qual foi favorável à sua execução pelo enfermeiro, assim como recomendou que esta temática fosse conteúdo obrigatório na grade curricular dos Cursos de Graduação em Enfermagem (COREN, 2004).

No mesmo ano, o Conselho Federal de Enfermagem - COFEN emitiu resolução determinando: “compete ao enfermeiro, enquanto integrante da equipe multiprofissional de saúde, a utilização da técnica do Brinquedo / Brinquedo Terapêutico na assistência à criança e família” (COFEN, 2004).

Em nosso dia a dia profissional, pais de crianças que têm tido oportunidades de vivenciar a utilização do Brinquedo Terapêutico junto a seus filhos na assistência de enfermagem têm espontaneamente emitido opiniões a respeito do mesmo, enfatizando o efeito dessa intervenção sobre seus filhos, conforme descrito em alguns trabalhos, como os de Ribeiro (1998) e de Maia, Guimarães, Ribeiro (2003).

Acreditamos que os pais desempenham papel fundamental como parceiros de seus filhos durante o processo da assistência à saúde, e assim consideramos necessário conhecer a sua opinião quanto ao significado dos diferentes aspectos que compõem essa vivência. No entanto, não encontramos na literatura pesquisas sobre o significado que tem, para eles, a utilização do brinquedo terapêutico na assistência de enfermagem aos seus filhos, o que nos propomos a realizar neste estudo.

Consideramos essa temática relevante no sentido de contribuir para a construção do conhecimento sobre a importância e os efeitos do brinquedo terapêutico para a criança e consequentemente para a família na qual ela se insere. Para tanto, realizamos este estudo com o objetivo de compreender o significado atribuído pelos pais, a respeito da utilização do brinquedo terapêutico na assistência de enfermagem ao seu filho.


* GEBrinq- Grupo de Pesquisa multidisciplinar e interinstitucional, credenciado pelo CNPQ, iniciado em 1994 por docentes da Disciplina Enfermagem Pediátrica da UNIFESP, que tem como objetivo aprofundar o estudo e realizar pesquisas sobre o ensino e prática do Brincar/ Brinquedo Terapêutico na assistência à criança e família.


TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

O estudo é de natureza qualitativa e teve como princípios teóricos e metodológicos a Fenomenologia. Esta, por sua vez, surgiu com Husserl como um movimento filosófico para reagir ao pensamento positivista do século XIX, tentando superar as tendências do racionalismo e do empirismo na questão do desenvolvimento do conhecimento científico (OHL, 2006).

É uma modalidade de pesquisa entendida como um pensar filosófico, voltado para a compreensão e a interpretação do mundo. Seu objetivo é descrever a experiência tal como ela realmente se apresenta e o significado que ela tem para os sujeitos que a vivenciam. Como referencial metodológico é um modo de abordar o fenômeno, sendo que ele é tudo o que se mostra, se manifesta, e surge para uma consciência que o interroga (MERIGHI, 2003).

Para Merleau-Ponty, a fenomenologia é basicamente existencial, por partir da investigação do homem situado em sua experiência concreta de vida, sendo que o mundo é o cenário em que se manifesta toda a experiência vivida (OHL, 2006).

A escolha desta abordagem deu-se pelo fato de a fenomenologia estar dirigida para a busca dos significados que uma determinada experiência tem para os sujeitos que a vivenciam. Ela permite estudar o ser que se revela à consciência numa atitude de acolhimento às percepções, pensamentos e sentimentos, procurando o pesquisador colocar-se na perspectiva do fenômeno estudado, para compreender como o outro a percebe, pensa e vive (MARTINS, BICUDO, 1994).

O caminhar da pesquisa

Este estudo se constituiu na análise fenomenológica dos discursos de quatro pais sobre o significado atribuído por eles a respeito da utilização do brinquedo terapêutico na assistência de enfermagem ao seu filho. Na modalidade de pesquisa qualitativa, a opção pela profundidade é a prioridade do pesquisador, em detrimento da amplitude do estudo, não sendo necessário um grande número de participantes e não havendo preocupação com a generalização ou comprovação dos fatos e sim com a subjetividade do sujeito (MATHEUS, 2006).

A pesquisa foi realizada após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição e mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos sujeitos participantes.

Os dados foram coletados nas unidades de internação pediátrica e ambulatorial de um hospital geral de ensino, localizado no município de São Paulo, conveniado com a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e no Centro Assistencial Cruz de Malta, que oferece à população serviços de creche, centro de juventude, cursos profissionalizantes e atendimento ambulatorial voltado prioritariamente para a assistência materno-infantil. Na referida instituição hospitalar, as crianças ficam acompanhadas por suas mães ou por outra pessoa significativa durante todo o processo de hospitalização, atendendo a Lei 8069, do Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990).

A estratégia adotada para a obtenção dos discursos foi a entrevista semi-estruturada, gravada e posteriormente transcrita na íntegra. Como forma de desvelar o fenômeno, iniciou-se a entrevista com a seguinte pergunta norteadora: “O que o (a) senhor (a) achou da utilização do brinquedo terapêutico na assistência a seu filho”?

A seguir foi realizada a análise fenomenológica segundo a modalidade do fenômeno situado. Segundo esta, só há fenômeno enquanto houver um sujeito no qual ele se situa. Assim, o pesquisador está interessado no sujeito que está aprendendo, no sujeito que está com medo ou que está ansioso, ou seja, sempre há um sujeito em uma situação, vivenciando um fenômeno (MARTINS, BICUDO, 1994).

Os passos para análise foram determinados pelo método que envolve dois grandes momentos: a análise ideográfica e a análise nomotética. A primeira tem como objetivo representar as idéias por meio de símbolos, descobrindo e atribuindo significado para cada discurso, e a segunda se propõe a fazer um tratamento coletivo dos dados, quando cada asserção é confrontada com os demais discursos em busca de convergências e divergências (MARTINS, BICUDO, 1994; NUNES, 2000).

Para realizar a análise idiográfica e apreender o sentido global dos discursos, realizaram-se várias leituras dos mesmos, possibilitando a extração das unidades de significado que são atribuídas pelo pesquisador, conforme sua ótica, de tal forma a sistematizar o que é vivido pelo sujeito, com relação ao fenômeno. Após a visão do todo, iniciou-se a redução fenomenológica das mesmas, para buscar clareza nos discursos (Quadro 1). Nesse momento, o pesquisador tenta fazer aparecer e explicitar a percepção interior de todas as significações que em torno dele constitui o mundo (MERIGHI, 2003).

Após a realização da análise individual dos discursos, buscamos as relações de convergência e divergências nos mesmos por meio da análise nomotética. A partir desta análise construiu-se um quadro (Quadro 2), que permitiu a compreensão da essência do fenômeno.

RESULTADOS

A análise dos discursos permitiu a articulação dos fenômenos em categorias temáticas, as quais serão a seguir apresentadas, ilustradas com falas extraídas dos referidos discursos.

Quadro 1 - Exemplo da redução e compreensão fenomenológica de um dos discursos

Quadro 2 - Convergências dos discursos conforme as categorias temáticas

O Brinquedo Terapêutico favorecendo a compreensão e aceitação do procedimento pela criança

Os pais percebem que as crianças conseguem compreender e aceitar melhor os procedimentos após receberem orientação da enfermeira por meio do brinquedo terapêutico. Além disso, elas conseguem reproduzir o procedimento no boneco passando então a aceitar melhor sua realização.

"Foi ótimo, ele aceitou numa boa o procedimento, a cirurgia, depois de ter sido aplicado o brinquedo terapêutico."
"A professora (de enfermagem) mostrou como ela ia fazer, numa boneca e ele deixou..."

O Brinquedo Terapêutico possibilitando tranqüilidade da criança e dos pais

A utilização do brinquedo terapêutico é percebida pelos pais como algo que tranqüiliza não só a criança como também a eles próprios. Eles se sentem tranqüilos quando percebem que a criança aceitou melhor a realização do procedimento.

"Ele estava preocupado e depois que fez (o brinquedo) percebi que ele ficou mais tranqüilo, foi muito bom".
"Para mim foi importante e para ele também porque ele tinha muito medo... e a professora mostrou como ela ia fazer, numa boneca e ele deixou, não sentiu dor e foi tranqüilo".

O Brinquedo Terapêutico promovendo a comunicação da criança

Os discursos dos pais mostram que eles percebem a importância do brinquedo terapêutico para ajudar seus filhos a se expressarem e falarem sobre seus sentimentos, além de possibilitar uma válvula de escape durante o período da hospitalização ou numa situação de conflito familiar. Além disso, proporciona à criança uma oportunidade para soltar-se, desembaraçar-se e comunicar-se mais com as pessoas.

"...sinal que ele está desabafando um pouco no próprio brinquedo. Ajudou um pouco ele a se soltar porque o D é uma criança muito calada. Então ele se soltou um pouquinho nos brinquedos... ele estava botando a vida dele para fora, contando a vida dele como é, os personagens ali já eram a própria vida dele, eu, a mãe, avós, tia e assim por diante". "E também para comunicar com as pessoas. Ele ainda é meio preso para comunicar com pessoas, mas aos pouquinhos ele está se desembaraçando mais... Não sei se é devido ao problema dele, que ele ficou muito tempo internado. Foi ficando assim, com bastante trauma. Acho que não podia ver as pessoas que já tremia..."

O Brinquedo Terapêutico permitindo a distração da criança

O discurso dos pais revelou que eles valorizam a utilização do brinquedo terapêutico e consideram que o mesmo permite não apenas a dramatização de procedimentos e vivências hospitalares, mas também a distração da criança, a tal ponto de ela não querer interromper a brincadeira.

"Eu achei bom, gostei. Ela brincou com uns bonequinhos, brincou de médica. Aí ela deu injeção neles e fez outras coisas que eu não me lembro. Ela gostou tanto que não queria deixar a enfermeira levar embora. Ela se distraiu bem."

O Brinquedo Terapêutico permitindo aos pais conhecerem melhor a capacidade de seus filhos

Esta categoria evidencia o reconhecimento dos pais de que, o brinquedo terapêutico também permitiu a eles conhecerem melhor a capacidade de seus filhos, percebendo, por exemplo, o quanto o filho é inteligente e criativo, assim como o quanto tais potencialidades não haviam sido afetadas pela doença.

"Ele foi colocando os desenhos, os bonecos, foi separando cada coisa em seu lugar e com isso a gente vê que ele tem uma cabeça muito boa... é, eu acho que ele fantasiou bem, criou bem... Eu acho que ele é muito inteligente. Com todos os problemas que ele já passou de enfermidade, tem cabeça bem inteligente".

O Brinquedo Terapêutico valorizado como uma importante intervenção de enfermagem

Os discursos dos pais revelam, ainda, que os mesmos mostram-se satisfeitos, aprovam e, sobretudo, acreditam na utilização do brinquedo terapêutico na assistência à criança, considerando-o como um importante instrumento de intervenção de enfermagem, e enfatizando a importância da continuidade das sessões no contexto do cuidado.

"Eu achei bom. Gostei"
"Foi ótimo, foi muito bom".
"Fiquei contente, muito feliz. Senti feliz... Acho bom continuar. Acho muito bom. Através de uma simples palestra, uma simples montagem de brinquedo, ele pode falar tudo aquilo que tem dentro dele..."
"... para mim foi muito importante, eu acredito nesse trabalho."

REFLETINDO SOBRE O FENÔMENO DESVELADO

Os discursos dos pais revelaram que os mesmos valorizam o Brinquedo Terapêutico considerando-o uma importante intervenção de enfermagem, uma vez que os mesmos constataram que essa experiência possibilitou às crianças compreenderem e aceitarem melhor os procedimentos a que foram submetidas. Permitiu ainda, aos pais, a percepção que essa vivência proporcionou aos seus filhos a diminuição do medo relacionado aos procedimentos, favorecendo assim uma maior tranqüilidade frente aos mesmos.

Tal fato tem respaldo na literatura, a partir de vários estudos que apontam o Brinquedo Terapêutico como um valioso instrumento de preparo da criança para procedimentos, especialmente os cirúrgicos como os de Almeida (2003), de Martins (2001) e os que envolvem a utilização de agulhas como o de Ribeiro, Sabates, Ribeiro (2001), o de Maia, Guimarães, Ribeiro (2003) e o de Martins et al. (2001).

Nesse sentido, a valorização do Brinquedo Terapêutico como importante intervenção de enfermagem aparece nos discursos de todos os pais que foram sujeitos do estudo, conforme pode ser visto no Anexo 2.

Outra observação relatada pelos pais foi que, com as sessões de brinquedo terapêutico, eles tiveram oportunidade de conhecer melhor a capacidade de seus filhos. Essa consideração também é relatada na literatura a qual aponta uma vantagem para os pais que têm a oportunidade de brincar com o filho hospitalizado, uma vez que a brincadeira permite a ambos vivenciarem o processo da hospitalização de maneira mais eficaz e tranqüila, além de possibilitar que eles conheçam melhor as atitudes de seu filho no hospital (HALL, REET, 2000).

Estudo acerca da relação entre a atividade lúdica e o vínculo existente entre a mãe e seu filho hospitalizado encontrou que o brincar pode auxiliar no fortalecimento do vínculo entre os mesmos. Na perspectiva das mães, o brincar surge como sinal de saúde, pois ao verem seus filhos brincando durante a hospitalização, se percebem menos angustiadas, podendo, inclusive, se relacionarem com eles de maneira mais confiante. Além disso, o brincar passou a ser uma outra possibilidade de comunicação e relacionamento entre ambos (JUNQUEIRA, 2003).

Esse mesmo trabalho constatou que, nos casos de crianças portadoras de distúrbios neurológicos, o brincar proporcionou a diluição das diferenças acarretadas pela patologia, permitindo à mãe perceber seu filho sendo aceito, olhado e respeitado como qualquer outra criança.

Os achados deste estudo demonstraram, ainda, que o Brinquedo Terapêutico é também valioso para os pais, não só por permitir um conhecimento da capacidade de seus filhos, mas também por favorecer que eles se tranqüilizem frente ao relaxamento dos filhos.

Um outro aspecto trazido pelos pais entrevistados foi o fato de o Brinquedo Terapêutico permitir a comunicação e a distração da criança. Essas percepções também são evidenciadas em estudo realizado com crianças escolares, portadoras de asma grave, que, mesmo em situação de tratamento farmacológico prolongado, tendo vivenciado várias internações, consultas médicas freqüentes e inúmeras restrições decorrentes da doença, foram capazes de expressar livremente seus sentimentos e sonhos por meio do Brinquedo Terapêutico, o qual passou a ser reconhecido pelos pais como uma atividade essencial na vida de seus filhos (BORBA, 2003; BORBA, SARTI, 2005).

Buscando identificar a visão dos acadêmicos de enfermagem acerca da utilização do brinquedo junto a crianças hospitalizadas com HIV/AIDS, um trabalho encontrou que os alunos reconhecem a importância do brincar para a criança uma vez que preenche o tempo com alegria e descontração, tornando o ambiente hospitalar menos hostil e frio e mais confortante (SILVA, LEITE, 2004).

Em concordância, estudo que buscou compreender como se dá a sensibilização das enfermeiras para a utilização do brinquedo terapêutico em sua prática assistencial, revelou que o brincar pode transformar o ambiente hospitalar e favorecer o cuidar da pessoa da criança numa atmosfera de amparo e reconhecimento de suas necessidades, o que permite transformar o cuidado numa brincadeira e possibilita transcender a assistência de enfermagem para além do contexto biológico (MAIA, 2005).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observa-se, portanto, que os resultados deste estudo sobre a opinião dos pais em relação à prática de utilização do brinquedo terapêutico na assistência de enfermagem vem se somar ao conhecimento dos inúmeros benefícios relatados na literatura, decorrentes do uso do brinquedo na prática. Eles evidenciam o reconhecimento de sua importância não somente para a criança, mas também para os pais que vivenciam ao lado de seus filhos a experiência da hospitalização ou dos vários procedimentos que compõem a assistência à saúde da criança.

A partir dessas considerações, reiteramos a importância da utilização do Brinquedo Terapêutico na prática assistencial à criança e sua família e apontamos para a necessidade de realização de novos estudos que permitam aprofundar a compreensão a respeito dessa vivência dos pais, em diferentes contextos assistenciais.

REFERÊNCIAS

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